Com notas máximas em redação cada vez mais raras, educadora destaca que dependência de ferramentas de IA pode prejudicar o desenvolvimento da escrita crítica exigida em provas como o Enem
A popularização das ferramentas de inteligência artificial para produção de textos tem transformado a rotina de estudantes em todo o país. Se por um lado, plataformas como ChatGPT e similares podem auxiliar na organização de ideias e no aprendizado, por outro, especialistas alertam para um risco crescente: a perda da capacidade de desenvolver uma escrita autoral, crítica e estruturada, competência fundamental para quem pretende conquistar uma vaga em vestibulares concorridos.
O debate ganha ainda mais relevância diante dos resultados recentes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na edição de 2025, apenas dez participantes alcançaram a nota máxima na redação entre mais de quatro milhões de inscritos. O número acompanha uma tendência de queda observada nos últimos anos e levanta questionamentos sobre os desafios enfrentados pelos candidatos na produção textual.
Para a empresária, escritora, professora e fundadora da Cris Oliveira – Tudo de Texto – especializada em ensino customizado redação, Cris Oliveira, o uso indiscriminado da inteligência artificial pode criar uma falsa sensação de domínio da escrita.
“A IA é uma excelente ferramenta de apoio quando utilizada com critério. O problema começa quando o estudante passa a terceirizar completamente o processo de pensar, argumentar e estruturar suas ideias. Nenhuma ferramenta consegue substituir o repertório, a capacidade crítica e a autoria que as bancas examinadoras procuram avaliar”, afirma.
Segundo a especialista, o principal diferencial de uma redação de alto desempenho continua sendo a capacidade do candidato de construir argumentos consistentes e demonstrar domínio da língua portuguesa.
“Os vestibulares não avaliam apenas se o texto está gramaticalmente correto. Eles analisam a capacidade de reflexão, a coerência dos argumentos, a articulação de repertórios socioculturais e a proposta de solução apresentada. Essas competências precisam ser desenvolvidas pelo próprio estudante”, explica.
Outro ponto que desperta atenção é a expectativa em torno das correções do Enem 2026. Após as mudanças implementadas na prova em 2025, especialistas acompanham de perto possíveis impactos nos critérios de avaliação e no desempenho dos candidatos.
Para Cris Oliveira, independentemente de eventuais ajustes no exame, a preparação continuará exigindo treino constante da escrita.
“Muitos estudantes acreditam que escrever bem é um talento nato, mas se trata de uma habilidade construída. Quanto mais o aluno escreve, revisa, lê e recebe orientação adequada, maior é sua capacidade de produzir textos consistentes e diferenciados. Não existe atalho tecnológico capaz de substituir esse processo”, destaca.
A professora acredita que a inteligência artificial deve ocupar um papel complementar nos estudos, funcionando como ferramenta de consulta, pesquisa e aprimoramento, sem substituir a prática da escrita.
“O estudante que utiliza a IA para ampliar conhecimentos e revisar seus textos tende a colher benefícios. Já aquele que apenas copia estruturas prontas corre o risco de chegar ao vestibular sem desenvolver as competências que serão efetivamente avaliadas. O desafio atual é aprender a usar a tecnologia sem abrir mão do pensamento próprio”, conclui.
Com a proximidade dos principais vestibulares do país e as discussões sobre o futuro das avaliações educacionais, o equilíbrio entre tecnologia e desenvolvimento das habilidades humanas surge como uma das principais reflexões para estudantes, educadores e famílias.
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