Nas empresas, o problema da IA não é usá-la: é saber o que não delegar
Divulgação

À medida que ferramentas passam de
assistentes a executoras, organizações precisam estabelecer limites para
preservar autonomia e responsabilidade

Um
estudo publicado em abril deste ano na revista Technology, Mind, and
Behavior
,
da American Psychological Association, identificou que 58% dos participantes,
em média, concordaram que a inteligência artificial “fez a maior parte do
pensamento” em tarefas de planejamento, organização e tomada de decisão. O
número ajuda a colocar em perspectiva uma mudança que já é parte da rotina de
milhões de pessoas: cada vez mais, o esforço de lembrar, organizar informações
e raciocinar vem sendo transferido para ferramentas digitais.

A
ciência cognitiva chama esse fenômeno de cognitive offloading, ou descarregamento
cognitivo. A prática não nasceu com a inteligência artificial. Listas de
compras, agendas, calculadoras, GPS e mecanismos de busca já funcionam há
décadas como extensões da memória humana. A diferença está na amplitude do que
a IA generativa passou a fazer. Além de armazenar ou recuperar informações, ela
resume, compara, sugere caminhos, escreve textos e apresenta alternativas
prontas para uma decisão.

É
essa mudança de escala que levanta uma pergunta cada vez mais presente em
empresas e comitês de tecnologia: quando uma ferramenta deixa de apenas apoiar
uma tarefa e passa a executá-la, o que acontece com a habilidade humana que
antes era exercitada para realizá-la?

“Não
estamos simplesmente deixando de memorizar informações porque temos tecnologia.
O que está mudando é a distribuição do esforço mental. Antes, precisávamos
lembrar, pesquisar, organizar e interpretar. Hoje, podemos pedir que uma
ferramenta faça parte desse trabalho em segundos. O ganho de produtividade é
real, mas precisamos entender qual parte do processo ainda deve permanecer sob
responsabilidade humana”, pondera Roberto Medeiros, CEO da EPI-USE Brasil,
consultoria especializada em soluções tecnológicas.

Terceirizar
parte da memória não é necessariamente um problema. Um estudo publicado em 2025
na Frontiers
in Cognition

mostrou que as pessoas tendem a recorrer mais a recursos externos quando a
quantidade de informação aumenta, e que essa estratégia pode até melhorar a
precisão em determinadas tarefas. Pode ser, portanto, uma forma eficiente de
administrar recursos cognitivos limitados diante do volume crescente de
informação no dia a dia. O ponto de atenção surge quando o recurso externo
deixa de ser apoio e passa a substituir etapas importantes do raciocínio.

Com
a inteligência artificial, o fenômeno ganha outra dimensão. A ferramenta não
guarda apenas uma informação para consulta posterior: ela produz uma
interpretação. Na prática, isso significa que uma pessoa pode terceirizar não
só a lembrança de um dado, mas também parte da análise necessária para decidir
o que aquele dado significa.

O que muda dentro das empresas

No
ambiente corporativo, o impacto pode ser especialmente relevante. Um profissional
que usa IA para organizar informações, identificar padrões ou levantar
possibilidades ganha tempo para atividades mais estratégicas. Mas, se passa a
aceitar respostas sem questionar premissas, fontes ou contexto, corre o risco
de reduzir justamente o exercício de julgamento que deveria orientar o uso da
tecnologia.

“Uma
boa utilização da tecnologia não elimina a decisão humana. Ela muda o lugar
onde o ser humano coloca sua energia. Em vez de gastar tempo procurando uma
informação ou fazendo uma primeira organização dos dados, o profissional pode
concentrar mais atenção em contexto, prioridades, riscos e consequências. O
problema começa quando velocidade passa a ser confundida com qualidade da
decisão”, explica Medeiros.

Para
as empresas, o desafio vai além de adotar novas ferramentas. A questão passa a
ser como desenhar processos em que a IA amplie a capacidade das equipes sem
retirar delas a autonomia para avaliar, questionar e decidir.

“É
uma mudança de cultura. A empresa não precisa escolher entre usar IA ou
preservar a capacidade de pensamento das pessoas. O desafio é estabelecer em
quais etapas a tecnologia deve assumir tarefas e em quais momentos a
participação humana precisa ser obrigatória”, afirma o CEO da EPI-USE
Brasil.

A
discussão ajuda a relativizar um medo recorrente em relação à tecnologia: o de
que ferramentas digitais simplesmente “atrofiem” a memória ou o
pensamento. A literatura científica é mais cautelosa. O descarregamento
cognitivo pode trazer benefícios e custos, a depender da tarefa, da forma como
a ferramenta é usada e do grau de confiança depositado nela.

A
pergunta, talvez, não seja se estamos terceirizando a memória. Em alguma
medida, fazemos isso há décadas. A novidade é que agora também é possível
terceirizar partes do próprio processo de pensar.

Isso
redefine o papel da tecnologia dentro das organizações. Se antes a principal
preocupação era aprender a usar novas ferramentas, o próximo desafio pode ser
aprender quando não usá-las, quando questioná-las e quais decisões ainda
precisam passar pelo filtro humano.

“Quanto
mais competente a tecnologia se torna, mais importante fica saber o que não
devemos delegar a ela. A questão não é manter todas as tarefas na cabeça. É
preservar a capacidade de entender, questionar e assumir a responsabilidade
pelo resultado”, conclui Medeiros.

Encontrou algum erro? Entre em contato