Por Lilian Miakawa
As doenças transmitidas por alimentos continuam a representar um
grande desafio global, considerando que eles podem causar, segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 200 enfermidades que afetam não
somente a saúde, mas também os meios de subsistência, a educação e as
economias. Embora o debate normalmente se concentre nos controles de matérias
primas, embalagens, processo de conservação e rastreabilidade dos processos,
existem outros fatores que também desempenham papel decisivo na proteção dos
consumidores, como é o caso dos lubrificantes food grade.
De acordo com a Associação
Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), as empresas do setor
investiram R$ 41,3 bilhões em 2025, um avanço de 6,8% em relação ao ano
anterior. Desse montante, R$ 26,7 bilhões foram direcionados à inovação,
modernização de plantas industriais e adoção de novas tecnologias, movimentos
que reforçam a busca por maior eficiência e competitividade nas operações.
Com instalações cada vez mais modernas e operações que demandam alto
nível de eficiência, a segurança e a qualidade de produtos e processos devem
ser consideradas prioridades para as organizações. Elas contam com diversos
maquinários responsáveis por embalar produtos, transportar e manusear os
alimentos dentro das empresas, e a utilização de lubrificantes seguros e o
gerenciamento adequado da lubrificação são essenciais para garantir proteção
aos equipamentos, produtividade, confiabilidade e a segurança dos alimentos. É
neste ponto que entram os lubrificantes da
categoria food grade, os únicos adequados para esse tipo de produção.
Benefícios dos lubrificantes food grade
Esses produtos são formulados para oferecer desempenho mecânico e
proteção às máquinas, ao mesmo tempo em que atendem a rigorosos requisitos de
segurança. Os lubrificantes food grade são especialmente importantes em
pontos da operação onde existe a possibilidade de contato incidental com
alimentos, ainda que em quantidades mínimas. A aplicação produtos de grau
alimentício ajuda a minimizar esse risco, reforçando os controles já existentes
dentro das plantas industriais.
Além de impactarem diretamente a segurança dos alimentos, esse
item também ajuda a garantir o funcionamento contínuo dos equipamentos,
reduzindo a ocorrência de paradas inesperadas que podem afetar a estabilidade e
a integridade dos processos produtivos.
Do ponto de vista técnico, redutores, correntes, sistemas
hidráulicos, rolamentos, compressores e diversos outros componentes industriais
devidamente lubrificados apresentam maior confiabilidade, melhor desempenho e
vida útil prolongada, consequentemente ampliando a eficiência operacional.
Conformidade regulatória e segurança dos alimentos
Por trás disso, o uso de lubrificantes food grade no
contexto da segurança dos alimentos é algo que exige processos documentados,
rastreáveis e alinhados aos padrões estabelecidos por órgãos reguladores e
certificações reconhecidas internacionalmente, como é o caso da National
Sanitation Foundation (NSF), responsável pela classificação e emissão do
registro dos lubrificantes conforme a aplicação, sendo a categoria H1 a mais
usual.
Se há alguma possibilidade de lubrificantes terem contato com
alimentos durante as etapas produtivas, um fabricante de alimentos precisa ter a
comprovação do registro de classe do produto adequado, com a aplicação
pretendida e a certificação ISO 21469 da planta produtora do fornecedor,
mandatória no Brasil e regulada pela ANP desde 2019. E cada tipo de processo
também possui requisitos particulares, que podem demandar ainda mais dos
lubrificantes com relação a formulações, certificações religiosas e declarações
específicas.
Na produção de congelados, por exemplo, o desafio está em como
preservá-los em situações de calor extremo. Neste cenário, os lubrificantes
para baixas temperaturas são essenciais para o bom funcionamento dos
equipamentos de refrigeração. Soluções de grau alimentício também devem ser
resistentes a altas cargas de contaminantes oriundas do processo produtivo,
como sais, sangue e gordura no processamento de carne, e à água em processos de
higienização empregados por este tipo de indústria.
Em relação a sucos de fruta, por outro lado, também é necessária a
resistência ao açúcar e a produtos químicos de higienização, além da própria
água. Até mesmo na indústria de panificação e de macarrão os lubrificantes NSF
H1 devem ser capazes de atender requisitos de alta temperatura em fornos.
Outros tipos de certificação, como a Kosher (referente às leis
alimentares judaicas) e a Halal (de conformidade aos mercados muçulmanos), e
normas também são utilizadas como referência na fabricação de lubrificantes food
grade, um indicativo de todas as exigências e precauções para reduzir
riscos associados aos alimentos.
As entidades regulatórias locais e internacionais, por meio de
revisões das principais normas de certificação do setor de alimentos e
embalagens, vêm ampliando a visão sobre a qualidade e a cultura da segurança
dos alimentos estendida para toda a cadeia deste setor. Nesse contexto, os
lubrificantes de grau alimentício são um exemplo de como o elo industrial da
cadeia produtiva é fundamental para o propósito de assegurar a proteção dos consumidores
e reduzir riscos à saúde ligados ao setor alimentício, de bebidas, ingredientes
e embalagens.
Lilian Miakawa é Coordenadora de Negócios de Alimentos da FUCHS, maior fabricante independente de
lubrificantes e produtos relacionados do mundo.