Proteção de dados ganha novo peso na relação entre empresas e consumidores
Magnific

Em
meio ao aumento dos vazamentos de dados e ao avanço da inteligência artificial,
especialistas defendem que transparência no uso das informações será um dos
principais diferenciais competitivos dos negócios

O custo médio global de um vazamento
de dados foi de US$ 4,4 milhões em 2025. Embora represente uma redução em
relação ao ano anterior, o cenário continua preocupante. O relatório Cost of
a Data Breach 2025
, da IBM, aponta que a rápida adoção da inteligência
artificial, muitas vezes sem mecanismos adequados de governança e controle,
abriu novas frentes de vulnerabilidade para as organizações. Entre as empresas
que sofreram incidentes envolvendo IA, 97% não possuíam controles apropriados
de acesso, evidenciando que a proteção das informações se tornou um dos
principais desafios da transformação digital.

No Brasil, os impactos também são
expressivos. Segundo o levantamento, o custo médio de uma violação de dados
chegou a R$ 7,19 milhões em 2025. Em contrapartida, organizações que adotaram
inteligência artificial e automação com práticas maduras de segurança
registraram custos médios 26% menores, demonstrando que inovação e governança
precisam caminhar lado a lado.

Nesse contexto, a discussão sobre
privacidade evolui para além do cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados
(LGPD). O debate passa a envolver uma questão cada vez mais presente na rotina
dos consumidores: afinal, o que as empresas realmente sabem sobre cada um de
nós e como essas informações são utilizadas?

A resposta está nas atividades mais
comuns do dia a dia. Ao fazer uma compra pela internet, solicitar atendimento
médico, utilizar um aplicativo de mobilidade ou receber o salário, milhões de
brasileiros compartilham informações que transitam por diferentes sistemas.
Dados cadastrais, financeiros, profissionais e até informações sensíveis são
processados continuamente para tornar serviços mais ágeis, personalizados e
eficientes.

Se, por um lado, essa integração
impulsiona a inovação e melhora a experiência do usuário, por outro amplia a
responsabilidade das organizações sobre a proteção desses dados.

Para Roberto Medeiros, CEO da
EPI-USE Brasil, consultoria especializada em soluções tecnológicas, a segurança
da informação deixou de ser um tema restrito às áreas de TI e passou a ocupar
posição estratégica dentro das empresas.

“A segurança da informação não
é apenas uma barreira contra ataques cibernéticos. Ela representa um compromisso
com a confiança das pessoas. Cada dado armazenado carrega uma responsabilidade
e exige transparência sobre quais informações são coletadas, por que são
necessárias e como serão protegidas durante todo o seu ciclo de vida.”

Segundo o executivo, esse movimento
impulsiona um novo conceito conhecido como “privacidade
transparente”, baseado na clareza sobre o tratamento das informações
pessoais.

“As pessoas querem compreender
como seus dados são utilizados. A confiança é construída quando a empresa consegue
explicar, de forma simples, quais informações possui, quem pode acessá-las, por
quanto tempo elas permanecem armazenadas e quais mecanismos existem para evitar
usos indevidos.”

O avanço da inteligência artificial
torna esse desafio ainda mais complexo. Modelos de IA dependem de grandes
volumes de dados para automatizar processos, identificar padrões e apoiar
decisões estratégicas. Quanto maior o volume de informações processadas, maior
também é a necessidade de controles capazes de garantir governança,
rastreabilidade e segurança.

Na avaliação de Medeiros, esse
cenário representa uma mudança definitiva na forma como as organizações lidam
com seus ativos digitais.

“Durante muitos anos, proteger
dados significava investir principalmente em infraestrutura tecnológica. Hoje
isso continua sendo essencial, mas já não basta. As empresas precisam
estabelecer políticas de governança, monitorar continuamente os acessos e
desenvolver uma cultura em que cada colaborador compreenda seu papel na
proteção das informações.”

A preocupação também alcança áreas
pouco visíveis para o consumidor. Sistemas responsáveis pelo processamento da
folha de pagamento, benefícios corporativos, prontuários médicos, gestão de
fornecedores e plataformas de atendimento armazenam dados altamente sensíveis,
cujo vazamento pode gerar impactos financeiros, jurídicos e reputacionais.

Para especialistas, esse cenário
consolida a segurança da informação como um indicador de maturidade empresarial
e competitividade. Organizações que demonstram transparência, governança e
capacidade de proteger informações tendem a fortalecer a confiança de clientes,
investidores, colaboradores e parceiros.

“A transformação digital trouxe
ganhos expressivos para empresas e consumidores, mas também elevou o nível de responsabilidade
das organizações. Transparência não significa revelar estratégias de negócio,
mas garantir que cada pessoa saiba como suas informações são tratadas e tenha
segurança de que elas estão protegidas. Esse será um dos pilares da economia
digital nos próximos anos”, conclui Medeiros.

À medida que a inteligência
artificial acelera a transformação dos negócios, cresce também a expectativa de
que as empresas conciliem inovação, ética e segurança. Mais do que atender às
exigências da LGPD, proteger dados tornou-se um compromisso permanente com a
confiança, um ativo que passa a ser tão valioso quanto a própria tecnologia.

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