SymptomPulse aposta em ciência de dados, inteligência artificial e participação cidadã para antecipar surtos de doenças antes dos sistemas tradicionais de vigilância
Em um cenário global em que surtos de doenças podem se espalhar rapidamente, antecipar sinais de alerta tornou-se um dos maiores desafios da saúde pública. Foi com esse objetivo que a healthtech brasileira Techtrials acaba de lançar o SymptomPulse, uma plataforma digital que transforma relatos anônimos de sintomas da população em inteligência epidemiológica capaz de identificar padrões de doenças em tempo quase real.
A proposta parte de um princípio simples, mas estratégico: muitas vezes a população percebe os primeiros sinais de uma doença muito antes de ela aparecer nas estatísticas oficiais. Ao estruturar essas informações e analisá-las com tecnologia de dados, o sistema consegue identificar tendências e possíveis surtos antes mesmo da confirmação laboratorial.
Segundo Douglas Andreas Valverde, farmacêutico-bioquímico formado pela Universidade de São Paulo e fundador da Techtrials, o SymptomPulse foi criado para reduzir o intervalo entre o surgimento de sintomas na população e a capacidade de resposta dos sistemas de vigilância epidemiológica.
“O SymptomPulse é uma plataforma de vigilância sindrômica participativa que transforma relatos anônimos de sintomas da população em inteligência epidemiológica em tempo quase real. A ferramenta permite identificar padrões de doenças emergentes e possíveis surtos antes mesmo que eles apareçam nos sistemas tradicionais de vigilância baseados em diagnóstico laboratorial”, explica.
Na prática, a ferramenta funciona como um termômetro digital da saúde coletiva. Qualquer pessoa pode acessar a plataforma pelo navegador ou instalar o aplicativo web no celular e registrar sintomas em poucos segundos. O processo é direto: o usuário seleciona sinais como febre, tosse, dor de garganta ou dor no corpo e informa apenas a localização aproximada, como cidade ou estado.
“Todo o fluxo foi desenhado para ser extremamente rápido. Em cerca de dez segundos a pessoa consegue registrar um relato. Quanto menor a fricção para participar, maior tende a ser o volume de dados coletados, e isso é essencial para a precisão das análises”, afirma Valverde.
A partir desses registros, algoritmos analisam variações estatísticas no volume de sintomas relatados. Quando uma determinada síndrome, como sintomas respiratórios ou gastrointestinais, começa a aparecer com frequência acima do padrão histórico em uma região específica, o sistema identifica um possível agrupamento epidemiológico e gera um alerta.
A iniciativa segue uma tendência internacional conhecida como vigilância sindrômica participativa, que vem sendo explorada por centros de pesquisa e órgãos de saúde em diversos países. A diferença, segundo a empresa, está na combinação entre participação cidadã, análise automatizada de dados, inteligência artificial e integração com bases oficiais brasileiras.
Além dos relatos da população, a plataforma também incorpora dados públicos do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), disponíveis no DataSUS. Esses registros são processados e classificados nas mesmas categorias sindrômicas utilizadas pelo sistema, permitindo cruzar informações institucionais com sinais captados diretamente da comunidade.
O SymptomPulse conta ainda com um módulo de gerenciamento de dados epidemiológicos apoiado por inteligência artificial, desenvolvido para analisar de forma integrada os relatos comunitários e os registros do SINAN. A partir desse processamento, o sistema produz boletins epidemiológicos de alerta, com informações estratégicas sobre tendências, alterações relevantes no padrão de sintomas, possíveis agrupamentos sindrômicos e sinais de atenção em determinadas localidades.
Esses boletins foram concebidos para apoiar a leitura situacional de autoridades de saúde, gestores, pesquisadores e especialistas em epidemiologia, oferecendo uma camada adicional de inteligência para monitoramento, priorização de investigação e avaliação de cenários epidemiológicos.
O resultado é um modelo híbrido de monitoramento epidemiológico que une rapidez na captação de dados, capacidade analítica e geração estruturada de informação estratégica.
“Os sistemas tradicionais são fundamentais, mas dependem de consultas médicas, exames e notificações formais. Isso naturalmente leva tempo. Plataformas participativas ajudam a preencher esse intervalo, oferecendo sinais precoces sobre o que pode estar circulando na população. Ao integrar esses sinais com bases oficiais e aplicar inteligência artificial na análise, conseguimos ampliar o potencial de geração de alertas e de apoio à vigilância epidemiológica”, diz o fundador.
Privacidade também foi um ponto central no desenvolvimento da plataforma. O SymptomPulse foi construído seguindo o conceito de privacy by design, no qual a proteção de dados é incorporada desde a concepção da tecnologia.
O sistema não coleta nomes, e-mail, telefone ou qualquer tipo de identificação pessoal. A localização informada é aproximada e os dados são agregados apenas em grupos estatísticos, como faixa etária ou período de relato.
“Nosso objetivo é entender tendências de saúde coletiva, não informações individuais. Os dados são analisados apenas em nível populacional, garantindo que não haja qualquer possibilidade de identificação dos usuários”, afirma Valverde.
Dentro da plataforma, os dados alimentam o chamado Mapa de Pulso, um painel que mostra tendências de sintomas e possíveis síndromes em diferentes regiões. Em paralelo, o módulo analítico com inteligência artificial organiza os dados em camadas de monitoramento epidemiológico e geração de alertas técnicos, ampliando o potencial de uso da plataforma por instituições, autoridades e especialistas.
A expectativa é que, com o aumento da participação da população, o sistema se torne cada vez mais preciso na identificação de mudanças no comportamento epidemiológico.
Para o fundador da Techtrials, o maior diferencial do projeto está justamente na inteligência coletiva gerada pela participação das pessoas, combinada à capacidade tecnológica de transformar grandes volumes de dados em informação acionável para a saúde pública.
“Um relato isolado não diz muita coisa. Mas quando milhares de pessoas compartilham informações sobre sintomas, padrões começam a aparecer. O que buscamos é transformar percepções individuais em um sistema de alerta capaz de ajudar a proteger comunidades inteiras e oferecer subsídios analíticos relevantes para quem atua diretamente com vigilância e epidemiologia”, conclui.